terça-feira, 29 de julho de 2008

Ela reclama da minha bagunça, da minha preguiça, do meu sono durante a tarde, da minha falta de interesse pelas coisas que diz, das minhas grosserias e da minha indisposição para conversar. Ela anda mal-humorada pela casa, me grita, me abraça, e sabe como me ganhar. Agora me diga: isso lá é uma irmã? Isso é uma esposa! E eu sou o marido oprimido. Oh vida! Oh vida!

Irracional

E quando achar que é certo,
é porque já perdeu mesmo a razão.
Ninguém se joga de um precipício
pensando em tocar o chão.
Todo mundo acha que é leve,
todo mundo quer voar.
E por um prazer tão breve,
acha certo arriscar.
Barriga pra dentro, peito aberto,
pra cair do penhasco da paixão.
E se ele achar que é certo...
Ah! É porque já perdeu
mesmo a razão.
Quando achar a dor atraente,
já não pensa com a mente,
mas com o coração.
Porque só ele, apenas ele,
entende o que não tem explicação.

Catu, madrugada de 23 de julho de 2008

Desculpe, sono, se meu corpo já não lhe atende e insiste em perambular seminu pela casa. Desculpe, coração, por esse vazio inexplicável e essa falta de querer. Hoje eu vou me dar o direito de me trancar no banheiro, me encarar demoradamente no espelho, e chorar. Sem nojo, vou me sentar no chão frio, abraçar os joelhos... e chorar. Um choro abafado, inaudível, secreto. E essa tristeza entre paredes, sem testemunha, sem prova, ao mesmo tempo que me acalenta, me apavora. Eu vou me reencontrar com meus medos, meu passado, meu nada. Vou dar de frente comigo mesma, até adormecer sentada, chorosa, recostada na privada.

Me muito tudo

Das vezes em que nem eu mesma sei o que quero dizer.

Me perdi o medo.
Me perdi, me perco.
Na história, no conto,
no enredo.
Me encontrei saudade.
Encontrei, não vejo.
A lembrança, a certeza,
o devaneio.
Me achei destino.
Me achei e sigo.
Certo, apressado, conciso.
Me escondi distância.
Escondi, não acho.
Em lugar algum.
Nem em cima,
nem embaixo.
Me dei pra escrever errado,
pra acompanhar meu pensamento.
Que é torto, desalinhado,
e impalpável como o vento.

Desculpe-me pela mediocridade das palavras, pela falta de coragem para olhar nos olhos, pelos meios sentidos, nem sempre bem entendidos, nem sempre captados por você como eu esperava que fossem. Eu não vou dizer que passei horas deitada, pensando na melhor maneira de dizer isso, porque não o fiz. Eu apenas achei melhor dormir, descansar corpo e mente, para poder lhe falar. Mas o meu medo, forte e cada vez mais inoportuno, permite-me apenas sussurrar palavras (que ficariam até românticas se fossem ditas ousadamente ao pé do ouvido), falando mais para dentro do que para fora. Não me cabe o atrevimento de pegar na sua mão (seria até aceitável se eu vivesse nos anos 50), virar, ainda que rapidamente, de maneira atropelada mesmo, e dizer: é você que eu quero. Talvez eu não esteja pronta para levar um não, ou talvez e mais grave ainda, não tenha estrutura para ouvir um sim, que mudaria por completo a minha vida. Eu quero muito que as pessoas se doem a mim, mas pouco sei me doar a elas. Não é diferente nesse caso. Odeio essa mania que eu tenho de me direcionar aos outros apenas quando eles me parecem úteis para algo. Sou egoísta, não nego. Mas às vezes tenho nojo de mim por isso (não, não é sempre que isso me envergonha). Não penso que seja direito tentar amar agora, que ainda não aprendi a ser menos eu e mais o outro. Agora, que por simples egoísmo, fui levada a te falar (ou escrever) o que sinto. No estado em que me encontro, se espero uma reciprocidade, não é por querer te fazer feliz, mas por achar que você acrescentaria a felicidade que falta à minha vida. E isso não é ser egoísta? Penso eu que sim. A maneira mais fria e egoísta de desejar alguém. E é assim que eu te desejo. Não sei se por falta de outra pessoa a quem desejar, por desocupação do meu coração vadio, ou por capricho da minha mente, que sempre teima em se voltar para quem obviamente só irá perturbá-la futuramente. Não é aceitável. Não é digno. Não é puro. Mas desejo é desejo, ora essa! Das duas, uma: ou ele acaba, ou vira amor. Só não me pergunte qual é. O “ou” é o espaço mais vago entre a felicidade e a desgraça.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Realização

E de repente, tudo passou
a ter sentido.
A fala incoerente
já nem chega ao ouvido.
E o que sempre esteve ausente,
parece há muito conhecido.
Fica o coração, vai a mente.
Porque de amor,
é ele o entendido.
E o que nunca era,
inesperadamente passou a ser.
Realizou-se sua quimera
de encontrar seu bem-querer.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Dois pés

Dois pés descalços nos alfasto.
Dois pés.
Adoraria que fossem quatro.
Ei, quem aí sabe de amor?
Queria saber como é do outro lado.
Onde o caminho termina.
Ou onde ele começa de fato.
Nos lados, embaixo, em cima.
Tudo ao meu redor está vago.
De ser visto de longe.
De estar desocupado.
Enxergo apenas dois pés...
Dois pés descalços no asfalto.

terça-feira, 8 de julho de 2008

Só sentia-se sozinho.
Mas ser sozinho não é nada.
É não ter quem abraçar,
quem lhe transmita confiança
e entenda seus momentos de mau - humor.
Coisa pequena.
E isso lá faz falta?
Faz... muita falta.
Ser sozinho é triste, muito triste.
E só quem é entende.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Soluçar

Um soluço.
Um choro engolido
Com muito esforço.
O fim.
A escuridão.
O poço.
A lama até os joelhos,
O suor na cara
E as cinzas nos cabelos.
Misturou-se calor,
Incêndio e tempestade.
O que havia de pior.
Inferno.
Calamidade.
Triste, andava triste.
Cabisbaixo, calado.
Só, sentia-se só.
Esquecido, abandonado.
Queria alguém.
Ah! Como queria.
E o tanto que desejava
Era do tamanho da sua solidão.
Os braços que abraçava
Era o vazio da imensidão.
O espaço desocupado.
O tato procurando o chão.
O entortar dos passos,
Dados sem direção.
Um soluço ecoado,
Para prender o choro de solidão.

Amou

De todo.
Tão tolo.
Entregou-se ao amor.
Muito.
E pouco.
Amou, amou.
O mínimo.
O máximo.
O que achava certo.
O que não devia.
Quem valia a pena.
Quem não merecia.
Fez de tudo.
Deixou de fazer.
Amou, amou.
Por ser tolo.
Por puro prazer.

Sabemos

Nos cantos, nos detalhes,
nos exageros.
Pedaços.
Metades.
Inteiros.
Às escondidas, às vistas,
em segredo.
Verdades.
Mentiras.
O medo.
Pra mim, pra você,
pra cada um de nós.
Amor.
Prazer.
E a voz.
A quem diz, a quem pensa,
a quem hesita em falar.
A glória.
A pena.
O pesar.
Dentro, fora e
até onde não dá.
Espaço.
Ocupado.
Lugar.
Nos risos, nas lágrimas,
nos abraços.
Sentimento.
Falta.
Embaraço.
Sempre sobra.
Sempre cabe.
E tudo que vai embora
deixa um pouco de saudade.
No coração,
na memória.
A gente sabe.

Se sinto, não percebo.
Se percebo, eu nego.
Meu amor é meu umbigo
e meu amigo é o meu ego.

domingo, 6 de julho de 2008

Desabafe

Pensar muito antes de falar estraga. Bom mesmo é dizer verdades rapidamente, sem antes combinar palavras e expressões para tentar ser agradável. Sinceridade é espontaneidade. O gostoso é chegar na cara dura, atropelar o nervosismo, engolir a culpa, e falar, falar, falar. Alivia. Falar o que pensa, mas não pensar antes de falar. E se alguém achar ruim a gente enfrenta. Porque bom mesmo é desabafar.

sábado, 5 de julho de 2008

*A gargalhada pode ser alta,
mas nada tem de bela se não é verdadeira.

Todo sorriso falso é sem graça e apagado.
Bem...pelo menos assim penso eu.

Sorrir.
Só rir.
Sorria, mas não convencia.
Sorriso forçado não
tem nada de alegria.
Mais antes um punhado
de mau-humor e ironia.
Sorriso espontâneo que
é graça plena, retrato de folia.
E nenhuma boca parece pequena
para um largo sorriso de euforia.
Riso.
Rindo.
Rico em hipocrisia.
Se não quer rir,
não ria.
Pois um riso forçado
não tem nada de alegria.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Nada o fazia dormir naquela madrugada fria de domingo. Nem mesmo o imenso cansaço no corpo, abatido pelas incertezas do coração. Pensava, virava na cama, olhava para o teto, para o nada. E era nada mesmo que conseguia fazê-lo dormir. Levantou-se. Os pés descalços, o chão frio e o inevitável arrepio. Dirigiu-se para a varanda, para encarar o frio de frente, enquanto em sua mente fervilhavam trilhões de idéias. Ela. Insistentemente, ela visitava os seus pensamentos, rondava silenciosa e ousadamente as suas lembranças, como um vulto na escuridão. Perigosa. Decidida. Teimosa. Amar alguém assim era um verdadeiro risco. E, sem querer - ou querendo mesmo -, ele arriscava-se todos os dias. Ela tirava o seu sono. Mas quando estava com ela, era como se pudesse descansar corpo, alma e espírito de uma só vez, recuperar as noites perdidas e a paz de que precisava o seu coração. Sofria por causa dela. Não queria mais ninguém, porque seu amor era ela... ela era. E como todo amor, trazia na bagagem incertezas, felicidade e sofrimento. Porque ela era amor de corpo inteiro: verso, inverso e avesso. E era disso que ele gostava. Era isso que ele odiava. Porque amá-la era tudo, era o melhor e o pior do mundo. Mas no fundo - talvez nem tanto assim -, ele gostava desse pouco de inferno no céu que ela era. Adorava os tempos de paz em suas guerras, suas batalhas de amor e ciúmes. Mas ele gostava porque não era alguém qualquer. Era ela... ela era... ela foi... motivo, incerteza ou cansaço maior que o fez dormir ali, na varanda mesmo, com os pés e as mãos já roxos de frio e a cabeça cheia, mas cheia mesmo de dúvidas.

Ele a olhava de soslaio, como quem não quer nada.
Ela, atenta ao seu olhar, sorria sem graça.
Passava as mãos pelo cabelo, tentando ser charmosa
mas, desajeitada, despenteava-se.
E somente quando sabia que ele desviara
a atenção para qualquer outra coisa,
se atrevia a virar o rosto para admirá-lo.
Ele, a cada 3, ela, a cada 5 segundos.
E, assim sendo, a cada 15 seus olhares se cruzavam.
E era como se saissem faíscas.
De frente, só matematicamente se olhavam,
mas de dentro via-se muito mais.
Era amor, um sentido descabido,
uma mania de querer, mas um querer antigo.
Se amaram desde sempre.
Desde sempre e muito antes.
Se viram em sonhos,
decalques de anseios e expectativas.
E souberam, desde os primeiros 15 segundos,
que era amor, nada mais.
Porém, um amor de prazos, a tempo marcado.

E quando sentiam saudades
e vontade de se amar,
disfarçavam e esperavam
por um novo cronológico olhar.

Eu sei

Eu não posso falar de amor.
Eu não posso sentir amor.
Minha garganta trava,
eu me engasgo com as palavras
e meu coração dói.
Eu não sei amar.
Eu nunca nem amei.
Mas eu não iria mesmo acertar.
Eu sei disso, eu sei.

terça-feira, 1 de julho de 2008

O que??

O que fazemos quando alguém parte
e não queremos dar adeus?
Apertamos a mão contra o peito,

engolimos uma lágrima a seco,
ou vamos junto??
O que fazemos quando a saudade é insuportável,
quando ouvir a voz e ver de longe não basta
e as lembranças se tornam repetitivas demais,
tamanha a frequência com que fomos buscá-las??
O que sentimos quando um sonho se perde,
quando somos nós mesmos os perdidos
e os pensamentos nos surpreendem??
Dor, desespero, medo, ou um simples acelerar do coração,
subir ou descer de pressão, ou a velha,
mas sempre presente e incoveniente confusão??
O que sentimos quando os sentimentos nos faltam,
quando os sentidos falham e os instintos nos traem??
Vergonha, arrependimento, raiva, ou só vazio,
que sozinho sabe ser grande coisa??
O que dizemos quando nos faltam as palavras,
as expressões certas na cara e o próprio silêncio fala por si só??
O que dizemos quando o olhar nos denuncia,
o nervosismo nos trai e nem temos
certeza do queremos mesmo dizer??
O que sentimos quando falamos demais,
quando simplesmente não pensamos antes de falar
e toneladas de palavras, olhares maldosos e críticas
nada construtivas saem espontaneamente??
Embaraço, orgulho, um saciamento íntimo
ou vontade de pedir perdão??
O que sentimos quando percebemos que aquele amor
que achávamos ser eterno não era verdadeiro
e descobrimos mentiras nossas e dos outros ??
Ódio, vontade de chorar, ou alívio, por termos
nos livrado a tempo de algo que jamais daria certo??
Cada um reage de um jeito.
Cada um pensa, sente ou mente de um jeito.
Eu... eu vou juntando os pedaços, quebrando
meu coração em mais outros tantos cacos
e depois colando-o de novo.
Eu choro, eu rio, eu sofro, eu me divirto.
Eu sinto muito. Eu desconfio muito. Eu nada sinto.
Eu vivo.

Me...do

Medo.
Eu tenho me... eu tenho mesmo...
medo...receio.
Eu não quero... eu não desejo...
sofrer... é disso que eu tenho medo.
Eu esc... eu escondo meus sentimentos...
porque eu esc... eu escolhi me esconder no medo.
Mesmo.

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