segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Ele era um decalque mal feito da incerteza mais angustiante. O joelho esquerdo sob a perna direita, as mãos largadas no colo, os olhos esquecidos sobre o porta-retrato. Que tela poderia expressar tamanha vontade do outro e tamanho não saber? Que verso poderia apagar a reminiscência de tempos felizes e tirar da reticência a resposta que tanto esperava? Calou-se. Calou-se havia doze minutos. Calou-se durante uma vida inteira. E, ainda assim, não ouviu barulhos, ruídos que fossem de reciprocidade, sequer um eco de sim. Calou-se. Porque, se fosse falar, sua garganta secaria e as lágrimas lhe molhariam o rosto.

domingo, 14 de setembro de 2008

Palhaçada!

“Tá” certo isso, coração?
Coisa mais sem graça,
Essa de que tudo passa,
Mas o amor é exceção.
Vou restringir a minha fala
Ao que eu guardo na alma,
Porque meu peito só dispara
Pra essa tal de ilusão.
Na minha essência,
Sou eu que dou as cartas,
Mas quando o coração fala,
O assunto é solidão.
Porque então não cala,
Se tão mal o amor lhe trata,
Se com a dor sempre depara
E só conhece rejeição?
Deixa de lado esse infeliz sentimento,
Dispensa o uso do argumento,
Encolhe os ombros, que eu te entendo,
Se abreviares a decepção.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Eu não tenho o menor talento e a menor pretensão a ser conselheira/psicóloga/terapeuta – amorosa. Mas parece que o mundo inteiro, de certa forma, vem chorar as mágoas no ombro da encalhada aqui. Não sei se não sou suficientemente grossa e sincera quando digo que o amor sem solução e relacionamentos que nunca dão certo não fazem parte dos meus assuntos preferidos – eles estão no topo da lista de coisas que menos gosto de conversar -, mas alguém sempre arruma um jeitinho de desabafar comigo. Que mania as pessoas têm de falar de sua intimidade com os outros. Sou completamente contra dizer o que se sente por fulaninho, como seu coração dispara quando o menino lindo, moreno, alto e forte da sua faculdade passa do seu lado. Ah, dos meus problemas, sentimentos e rejeições cuido eu. Acho extremamente desconfortável conviver com alguém que sabe das minhas fraquezas, dos meus medos, dos meus sonhos. Fico com a impressão de que algumas frases e pensamentos soltos têm a ver com aquela noite em que falei como me sentia triste por estar sozinha, como desejava encontrar alguém parecido comigo, que me entendesse só de me olhar. Sem contar na vergonha de saber que alguém me viu mal, fraca – odeio me sentir assim e mais ainda deixar transparecer. Me sinto humilhada, eu perco meu orgulho. Sempre me arrependi das vezes em que falei sobre a situação da minha vida - amorosa ou não - com alguém. Uma vez, chorei na frente do homem que vende tapiocas aqui no bairro. Estava muito deprimida porque minha irmã havia sofrido um acidente e desabei na frente dele. Tudo bem que ele me animou – embora isso não resolvesse o meu problema -, mas acontece que eu sou louca por tapioca e vou comprar quase sempre. Fico pensando o que ele deve imaginar a cada vez que me vê. Às vezes acho que ele se diz: “coitada da bichinha”. Mas o pior mesmo é quando alguém sabe da sua vida amorosa. Iiiiih, é terrível! Meu trauma vem da infância, quando minha irmã falou bem alto na fila escola que eu era apaixonada por um menino da minha sala. Soma-se a isso a inconveniência de muitos. Que coisa chata a pessoa vir te perguntar: “e aí, como é que ‘tá’ seu coração? Já resolveu o problema?”. Saco! Um sacrifício miserável para esquecer o desastre completo que virou meu “sentir” e vem um bendito me lembrar. Não é difícil de entender que se eu estivesse afim de falar sobre isso eu mesma começaria a conversa, não é? Por essas e outras, não me abro com ninguém. Não confio nas pessoas, na discrição que elas fingem ter. Não sei se sou curiosa ou observadora demais, mas percebo de longe quando amigas conversam com os olhos quando certa pessoa passa: “é ele, amiga, é ele”. Tão na cara. E que chato, chato mesmo passar horas falando da sua vida íntima. O que é que eu tenho a ver com isso? E ainda tem gente que acha ruim quando eu respondo sincera e secamente quando sou questionada sobre os sentimentos ou não do outro: “ele (a) não gosta de você, não seja idiota”. Não quer saber, não me pergunte. Melhor... Não me fale, por favor, desse bendito sentimento que é o amor. Eu não estou interessada no fim do seu namoro, nas suas paqueras do trabalho, na quantidade de pessoas com que você ficou. Eu não sei porque ainda falo – às vezes e com pouquíssimas pessoas - que sinto falta de um namorado. Todo mundo vira santo casamenteiro e me arranja um monte de pretendentes, que nem sequer sabem que eu existo. Odeio isso, odeio! O coração é meu, a insensibilidade e a má sorte no amor são minhas e, portanto, deles cuido EU!

domingo, 7 de setembro de 2008

Nem ouse, coração,
nem ouse gostar assim.
Nem se atreva, razão,
nem se atreva a fugir de mim.
Não gosto de pedido negado,
meu legado é a intenção.
Se é pra sofrer, eu sofro calado,
prefiro mesmo a solidão.
O amor é muito do abusado.
Por isso nem tente...
aaaah! mas nem invente essa
arte de cão !

*Não sabia que título colocar... =/
Na busca cega de cada esquina,
Um sentido para ir de encontro ao desconhecido,
Uma mão para parar o antecipado,
Um coração fiel para guardar um segredo.
No dia-a-dia deficiente da sociedade,
Um par de olhos para ver o necessitado,
Um ombro amigo para dar amparo,
Uma dessemelhança da insensibilidade.
Na razão surda, que ignora o sentir,
Uma chance para ser ouvido,
Um momento com o nosso íntimo,
O racional a abstrair.
No pedido mudo, que limita-se ao querer,
A desobediência ao receio,
A imprudência metendo-se no meio,
O instinto decidindo o que fazer.
Complexo cego, surdo, mudo e deficiente,
Somos a alegria insana de uma dor aparente,
Vivemos a dor humana de uma alegria inexistente,
Somos o câncer do mundo e o mundo é pouco pra gente.
Desenhamos nossa própria incerteza,
Pinchamos a razão quando ela nos desagrada,
Encontramos sentido quando já não há clareza,
Fazemos muito, ou não fazemos nada.
Onde queremos, quando e como podemos,
Loucuras perdidas na sanidade,
Somos antídoto de nosso próprio veneno,
Mentiras contadas como se fossem verdade.

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